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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Aline e César - A Minha Embala

Essa miúda está destinada a encantar ouvidos e a fazer bater corações. O progresso é notável da sua maquete para este novo projeto com o seu amigo César Herranz, tanto na segurança vocal, no dedilhar mais refinado da guitarra, como, agora, no recheio do ambiente com flauta e percussão do César. Felizmente, continua docemente longe da perfeição, mantendo um charme nas suas notas ao lado ou no descoordenar do arranjo musical.

Eu só me verguei à partir da faixa número 3, tendo as duas primeiras falhado em captar-me o coração, não por serem más, longe disso, mas soaram-me menos naturais e sentidas que as do Rascunhos e, para meu alívio, das que se lhes seguiram.

Maria Silêncio... o que dizer? Sublime! Um poema galego de Ricardo Carvalho Calero transformado em música, na promoção do universo da galeguia que muito tem inspirado a Aline. O Olhar Adiante eu já tinha gostado, mas no outro dia quando ela a tocou na Casa do Brasil acompanhada da irmã Raquel, arrepiei e emocionei-me, senti aquela penugem da nuca a eriçar-se, fiquei malaike mesmo, o som ficou lindo demais (Aline, grava só essa versão com a tua mana yá?). Agora ouvindo o som de novo sou remetido para esse concerto e para as intensas sensações que me provocou e consigo sentir emular fraccionalmente esse momento.

O poema de Alexandre Dáskalos "Que é S. Tomé", que foi também de onde a Aline tirou o nome para o projecto, foi musicado com uma simplicidade genial, deixando o espaço preponderante para a letra, com um dedilhar mais vigoroso da guitarra e uma flauta discreta mas essencial.

Também está muito fixe a colaboração com a voz masculina que vem acrescentar um tom novo na palette em "Kamba de Fala".

Os temas "Foz" e "Assinatura de Sal" são dois típicos temas ao estilo da Aline que cruzam as suas muitas influências, sentindo-se de forma algo vincada o romantismo da Bossa Nova: algo tristes, melancólicos e de refinado bom gosto, a anos-luz do comum perfume barato anselmo ralphista.

Aline, tens carta branca para continuares a hipnotizar-nos com essa voz de encantar serpentes, esse teu jeito dengoso e sorriso menino que te tornam tão especial.

01. Uma Pedra de Sal
02. Jeitos
03. Maria Silêncio
04. Olhar Adiante
05. Kamba de Fala
06. Que é S. Tomé
07. Assinatura de Sal



Visitem o site oficial do grupo aqui e vejam mais vídeos aqui

Catem o mambo aqui

quarta-feira, 10 de março de 2010

Aline - Rascunhos (Maquete)

Esperei várias semanas para partilhar isto convosco. Não porque estivesse com dúvidas quanto a valiosidade do que agora vos proponho e também não foi nada a ver com aquele sentimento prazenteiro ridículo de sermos detentores exclusivos de algo de valor que não se produz em série e por isso não se encontra com facilidade. Tipo aqueles que se permitem decorar as suas paredes com originais do Dali ou Van Gogh e depois os exibem aos amigos com um orgulho de coleccionador que mascara a mesquinhez do “é o único e SOU EU que o tenho”.

No que toca a música, a existência de coisas únicas tornou-se quase um mito com a democratização da internet e o aparecimento dos programas P2P, com os quais podemos aceder as colecções de “peças únicas” de cada um, entrando directamente nos seus computadores e extraindo aquilo que nos interessa.

Dito isto, se não partilhei este mambo no dia que cheguei à tuga e voltei a estabelecer contacto com o mundo cibernético, foi pura e simplesmente porque fiquei a espera que a artista em questão me facultasse uma capa. Ficou de lha fazer um amigo dos designs. Portanto, foi por mera preocupação estética, pode-se dizer até vaidade, que esta voz de anjo ainda não vos hipnotizou. Pelo menos na parte que me toca enquanto blogger e melómano assumido. Ainda tenho um pouco do séc.XX em mim e gosto de ter capas para os discos que partilho com a malta dos downloads (também inventei aquela capa para o EP dos Filhos da Ala Este).

Só me lembro de ter tomado conhecimento da existência da Aline numa daquelas moambadas de estudantes da diáspora, 20 pessoas no kubico do “equinho” (estimativa por baixo, para os pais dele não assustarem), tudo bwé animado, conversas sobre a banda e... pois é, tem sempre aquele amigo da viola para o momento cançonetes, sendo que o ecletismo depende do gosto dos presentes e, claro, da destreza do guitarrista. Então entre os “Não sou o único”, “She will be loved”, “Kiss from a rose” da praxe, começou o reboliço (também clássico) à volta da “voz” do grupo, com o pessoal a insistir bwé: “vá lá, canta”, “opá, vá lá”. E claro que a “voz” fez o seu joguinho de “ooohhh, assim fico acanhada”, até ao ponto em que a pressão de grupo foi superior a timidez individual e a “voz” sentiu-se obrigada (mas cheia de vontade claro) a agraciar-nos com o talento que tem em mais abundância que o resto da maralha.
A miúda tinha mesmo um timbre doce. Senti... mas não liguei (dika powered by gato fedorento)!

3 anos volvidos e cruzamentos mais frequentes pelas curvas da rotina mwangolê no estrangeiro, a minha admiração por este belo espécimen da raça humana, inflou umas 20 vezes. Para além do impressionante progresso no controlo de voz nas variações de nota e timbre, da evolução no seu domínio da viola, e outros reparos do foro técnico, aperfeiçoou a sua escrita que está sublime, e aprecio particularmente o seu jeito menina ingénua e inconformada com as injustiças “naturais” que lavram as sociedades contemporâneas.

Ouvindo esta maquete constatei aliviado que ela não me arrepia só ao vivo e que, é possível sim senhor sentir-se o nível de honestidade e intenções puras no que se faz, confiando apenas e só na performance do intérprete, na profundidade que ele/a imprime no tilintar do gurgumilo, seja o lamento carnal de alguma aflição congénita ou o desabafar raivoso de algum episódio encolerizante. A Aline é mais para o tom lamurioso e é-o com muita classe.

A maquete tem um valor acrescido porque, para além dos covers que ela faz da Mayra Andrade (Tunuka e Lua), Ngola Ritmos e Teta Lando (o fantástico e rejuvenescido mashup dos intemporais Mbirim mbirim, Mupiozo me e Muxima), a menina mostra-nos os seus talentos de de autora/compositora com dois temas de sua autoria, o Babel e o Rascunhos.
Não sei porque escolheu deixar de fora o poema de Alexandre Dáskalos (Que é São Tomé) que de forma tão graciosa musicou, mas isto já chega para primeira dose.

Muita alma nesse mambo. Alimentem-se.

01.Babel
02.Tunuka
03.Muxima (na verdade e por ordem: Mbirimbiri,Mupiozo Me, Muxima)
04.Lua
05.Rascunhos



Catem o mambo aqui

sábado, 16 de outubro de 2010

Kukiela (Aline Frazão) - Primeiro Mundo (Só de Brincadeira)

Minha amiga Aline, cada vez melhor, essa miúda vai dar muito que falar. Aquela voz não lhe chega, também tem já de compor assim? Continua assim minha kamba, a cantar e a inspirar.

Vos deixo o vídeo, a letra e o blog da menina se quiserem ir consultando as novidades que ela vai postando

O blog da Kukiela



PRIMEIRO MUNDO (SÓ DE BRINCADEIRA)

Eu não sei porquê

Há um incêncio dentro de cada janela e se vê

Eu não sei porquê

Este incêncio que arde dentro,

Come o corpo todo e a gente finge que não vê, finge que não vê

Mas por dentro arde, como não vai arder?

Se na minha terra não tem pra comer

Já quase creio que não tenho o direito de ser alguém

E por isso arde, ter de dizer adeus

Sem saber se o deserto me vai vencer

Juntar os últimos sonhos com a roupa do corpo

Partir por mim e pelos meus

E afinal, tem que haver algum deus…

Mas por dentro arde, como não vai arder?

Se chegando no Primeiro Mundo

Me sinto mais esquecido do que era no Segundo

Arde, o carimbo de ilegal, preconceito racial

Só por ter nascido mais ao Sul

Xé, gente do Primeiro Mundo

Pais da civilização

Por não ter um papel acabei numa prisão

Xé, gente da terra inteira

Queima o fogo da desilusão

Esse primeiro mundo é só de brincadeira, só de brincadeira

E você finge que não vê

Tens que entender que não há diferença entre nós

É a mesma essencia

E se a minha liberdade não existe a tua é só aparência

É só aparência e você finge que não vê…

Primeiro mundo só de brincadeira, só de brincadeira!


E se ainda não cataram a primeira maquete da rapariga, já o deviam ter feito, pois já a disponibilizei aqui há bwé de tempo. Verifiquem o post aqui.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Euzinho no Music Box

Meu terceiro show na tuga, o primeiro em Lisboa. Music Box foi a casa e fiz a abertura para Batida. Contei com a participação dos meus manos: Sir Scratch, XEG, DJ Mpula, Valete e da minha mana Aline Frazão que abrilhantaram a noite. Alguém elegeu o tema com a Aline para colocar no youtube e assim eu aproveito para partilhar.


terça-feira, 3 de novembro de 2009

André Mingas - Coisas da Vida

No outro dia fui fazer uma singela participação na apresentação ao vivo da minha querida amiga Aline e, um pouco antes, enquanto passávamos uma revisão nos temas que seriam tocados nessa noite, decidiu-se experimentar fazer o "O que eu quero" do André Mingas, porque eu tenho um verso recente num tema chamado "Sorriso Angolano" que vem no próximo álbum da Ngonguenha e esse é o tema que samplamos. A Aline tocou, cantou, o dred Marco Pombinho fechou um solo nervoso com a melodica e eu fiz o dito verso e a espontaneidade com que aquilo saiu foi tão forte que o som acabou por ser incluído no set. Foi bwé emocionante e eu cheguei à casa cheio de vontade de ouvir o original de novo. Felizmente o meu dreida cabeçudo teve o brio de colocar o álbum disponível no blog dele (para onde vos encaminha o link) porque é INCRÍVEL como é que um gajo do calibre do André Mingas seja INEXISTENTE na internet. Há tipo umas 3 ou 4 fotos do kota e depois nada. Ninguém fala deste álbum... que é, a meu ver, um clássico incontornável, uma referência insofismável, uma passagem sonora obrigatória para todo o nené da geração de 80. Por causa dessa falta de referências (e por estar neste momento na tuga), não consegui corrigir a ordem das faixas no disco que o nguimbola meteu em ordem alfabética, mas que não é a correcta. No entanto já ouvi "O que eu quero" umas 40 vezes desde domingo. Espero que o kota não lance mais álbum nenhum para não estragar o gostinho que depois de quase duas décadas continua fresquinho no nosso paladar. MWANGOLÉS POSSUAM ISTO!

01 - Coisas do Amor
02 - Esperança
03 - Hino ao Amor
04 - Jiminina
05 - Jisabu
06 - Mufete
07 - Nzambi
08 - O Que eu Quero
09 - Soba
10 - Tchipalepa

Táki

domingo, 21 de fevereiro de 2010

De volta com um BANG!

Fiquei muito tempo sem postar né? Pois é, às vezes não tenho net e acho que essas vezes hão de começar a multiplicar-se a medida que eu for ficando mais tempo pelas terras de Mbandi, Mandume, Kevela, Kiluanji e outros bravos do maqui.
Entretanto, sempre que puder venho cá deixar pérolas, raridades, inéditos e documentos históricos. É mesmo por aí que vou começar, reuploadando os dois álbuns dos Irmãos Kafala e fazendo um mega upload de umas compilações dos lendários Ngola Ritmos, recuperadas pelo meu tio dos arquivos poeirentos de um qualquer melómano tuga e agora partilhadas com o mundo, que passou a ser o seu legítimo dono, depois da passagem física do Liceu Vieira Dias e da dissolução do grupo. Espero que os novos detentores deste legado sintam pesar sobre os seus ombros a responsabilidade de o transferirem a todo e qualquer interessado na matéria. Trouxe também o Dance Mwangolé do Batida, 4 mambos de um grupo que não sei como tive a audácia de ainda não ter postado nada que são os 340ml e uma maquete de uma amiga muito talentosa chamada Aline Frazão.
Boa escuta

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Aline Frazão - Tanto

Crescendo e desabrochando. Cada vez mais apurada e mais madura. Voz no sítio, letra sopimpa, vídeo muito forte. Vem aí o segundo álbum a solo, intitulado "Movimento". Aguardando pacientemente.


domingo, 24 de abril de 2011

Eduardo Galeano - Sangue Latino

Aos meus 11 "seguidores":

Não fiquem chateados, tudo na vida tem o seu tempo e o seu lugar e todos temos as nossas fases. Neste momento eu, um melómano confesso, não ando minimamente virado para a música, se vos disser que passou-se mês e meio sem que eu tivesse a curiosidade de explorar os meandros musicais vocês irão certamente recusar-me o auto-proclamado epíteto. Não só não procurei como não mantive canais abertos para deixar que ela me encontrasse, até que a minha namorada rompeu o meu jejum audiofónico e me mostrou três artistas que eu desconhecia e que muito apreciei. Provavelmente hei de postar alguma coisa de um deles aqui nos próximos tempos. Entretanto, estou mais numa fase de reavaliação, reenquadramento de eixos e prioridades, "egocentrando-me" :). Nesse exercício nada simples, ao contrário do que pode muitas vezes parecer, os interesses principais que regem a nossa existência sofrem um abalo e passam a ser, temporariamente (espero), secundarizados. Como não queria deixar de partilhar alguns desses momentos convosco, meus fiéis 11 "seguidores" que estranharão o meu silêncio, quero partilhar convosco uma entrevista ao escritor uruguaio Eduardo Galeano que a minha boa amiga Aline me empurrou hoje. É simplesmente de uma clarividência e sabedoria inspiradoras. Para quem o tempo não se conta ao milésimo de segundo:

Eduardo Galeano • Sangue Latino from Breno Cunha on Vimeo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Nástio Mosquito - Se eu Fosse Angolano


Antes de apertar play neste trabalho um aviso prévio: Nástio não é “The Voice”! Todo aquele para quem uma voz doce e cristalina seja critério absoluto para conseguir apreciar um disco/artista, não estará a vasculhar no lixo certo. No entanto, como alguém que ouviu pela primeira vez uma faixa do Nástio por volta de 2006/2007, devo dizer em seu abono que com o tempo (e, certamente, a prática) ele aprendeu a usar as suas limitações vocais e tirar delas o melhor partido, não desafina de todo, logra sem grande esforço imprimir uma carga emocional/dramática nas suas notas fortes e chega a ter alguns rasgos de beleza no timbre grave. Para além disso, o rapaz é maleável, vai da performance vocal para uma oralidade mais spoken word com o à vontade camaleónico de alguém que estudou drama, ou com o dom inato da arte da interpretação.

O Nástio é um artista completo, complexo, cheio de pormenores e detalhes que normalmente escapam à primeira escuta e este trabalho não foge à regra, desvendando-se aos bochechos na comunicação entre o tímpano e o cérebro, fazendo com que este último processe a informação e nos retribua “??!?!?” ao invés da lógica binária que melhor sabemos interpretar. O resultado? Emoções reticentes no sentir, também elas objecto de análise subsequente: gostei desta música? O que ela me diz? Qual é afinal a opinião do artista? Estou de acordo? O que é isto? Isto normalmente assusta o ouvinte comum que, ficando confuso, determina simplesmente que “não gosto”, com o receio de estar a gostar de algo com o que não concorda.

Também a musicalidade (no que toca as composições rítmicas) do Nástio veio acumulando camadas de maturação que a consolidaram como muito própria, única mesmo eu diria. Neste disco existe uma incrível coesão entre as 11 faixas que o compõem apesar de ter sido produzido entre dois países e, logo, com músicos diferentes. Pode ser que seja um disco conceptual, que siga uma orientação musical deliberadamente definida para criar a atmosfera ora maravilhosamente melódica, ora algo fantasmagórica e que no próximo disco ele transite do Trip-hop (estou abusivamente a etiquetar o álbum, anunciando desde já que deixo espaço para eventual alteração que provenha do próprio), para o Punk, Cumbia, Ska, Reggae, Kuduro, Drum n Bass, Kizomba, enfim, o que lhe der na telha, pois o rapaz não é claramente alguém que se conforme a normas musicais fronteiriças. Seja qual for o caso, este é um disco para lá de audível, é muito agradável musicalmente e muito rico em termos de conteúdo lírico, no sentido hiphopiano do termo. Mas justamente nesse último quesito o Nástio revela que não faz questão de abdicar da sua irreverência e que não irá facilitar a vida a quem queira compreendê-lo. Confesso que tentei e fui bem sucedido (ou pelo menos dei-me por feliz com as minhas conclusões) algumas vezes, mas noutras, muitas, falhei miseravelmente e aceitei simplesmente o facto que as vezes é preciso deixar o nosso coração e subconsciente reagirem instintivamente ao estímulo que o artista consegue provocar, sem tentar ser excessivamente cerebral.

Uma coisa é certa e inquestionável: este álbum está carregadíssimo de teor político, com análises ácidas de fenómenos sociais paridos pela nossa pátria “potencialmente patética” que definha nas mãos de um punhado, fonte da deterioração dos valores que fazem com que “Kanuku quer fazer massa, mamã quer fazer massa, homem da massa quer massa” e que o frustrado seja levado a dizer: “Estou perdido e não quero me encontrar, Para quê? Se no fim vão só me maltratar”.

No tema Demo da Cracía, Nástio não se inibe de citar alguns culpados pelo marasmo em que vive a humanidade proveniente daquela latitude do globo (e não só), usando vocábulos praticamente banidos da música angolana. Nástio faz de observador imparcial sem assumir bandeiras, varrendo todos para o mesmo insonso vómito de pretensos salvadores da pátria, sugerindo que a história da nossa democracia se resume a “Viva MPLA-ya, viva UNITA-ya, viva FNLA-ya”. Não é preciso dizer muito mais. Também não é difícil perceber que este tema sozinho pode carimbar o selo de “artista non grato” no seu “passaporte artístico” e remetê-lo para a lista negra de pessoas cujos nomes não devem sequer ser citados. Mais forte de tudo, o mano escolheu este tema como SINGLE do álbum, dando-lhe uma roupagem Kizomba, com ajuda inestimável do Kennedy (ver o 2º vídeo abaixo).

Identifica (o excesso de) “auto-estima, ambição profissional, orgulho no mérito” como ingredientes principais para o emagrecimento compulsivo da alma do angolano, ou parece-me a mim ser isso que ele quer dizer.

Dizer que Nástio não evita temas sensíveis e tabu seria minimizar a postura revelada neste disco, pois ele não só não evita como faz questão de as confrontar, povoando grande parte da sua temática em assentamentos de areias movediças como: drogas, política, religião, escravatura, abandono social, exploração sexual, racismo. Num álbum de 11 faixas, podemos dizer que ele será o único a fazê-lo, se excluirmos alguns protagonistas do género Hip Hop. O facto de ser por vezes muito codificado é frustrante para quem deseja render-se ao artista, sendo incapaz de decidir se se identifica com o que defende, mas, repito, muito corajoso.

No tema “Arco-Íris” há uma abordagem de uma rara imparcialidade sobre os preconceitos de parte a parte (clichés tornados dogmas acerca de brancos e pretos) e no “Escravatura nos Pertence” ele ousa desafiar aos angolanos/africanos encararem a sua quota-parte de responsabilidade no holocausto da escravatura.

Estava por exemplo a ouvir a faixa “Existo”, que musicalmente foi uma das que menos captou a minha atenção e já ia na fase de piloto automático em que não mais tenciono apanhar dor-de-cabeça tentando decifrar as charadas do Nástio, quando sou arrebatado com uma força inenarrável da minha indiferença por uma sequência de frases dignas de um filme de Gaspar Noé: “Violei minha sobrinha, violentei a filha da vizinha, minha filha teve mesmo sorte, não lhe apanhei sozinha”! AHHHHHHHHHHHHHHH! Rebobina essa merda, volta para trás, põe do início, escuta com (mais) atenção, não tenta partilhar essa (atenção) com outras tarefas, o Nástio não é artista para tentar escutar em modo multi-tasking. A música é uma narração da mente distorcida de um violador!

Temas mais “luminosos” são sem dúvida os influenciados pelo Semba e pela Kizomba: “Tecnologia do Ancião”, um ode aos nossos mais-velhos e “Desabafo de um Angolano Qualquer”, ambos cheios de esperança e positividade, sons para curtir de olhos fechados e deixar-se emocionar.

Se às vezes gostava de entender melhor qual é a sua opinião ou o que ele pretende comunicar (ouvir “Volta”), tarefa que propositadamente não facilita com frases que resguardam e se escusam de obviar o que pensa, tenho de lhe reconhecer o grande mérito de ser incomodativo, irreverente, provocador, demolidor de dogmas, interventivo, incisivo, destemido, avant-garde, enfim, artista! Se juntarmos a todas essas qualidades os factos de: 
1) O disco ter sido disponibilizado de forma gratuita na sua página; e
2) O artista ter optado com exclusividade para o uso da língua portuguesa (ele domina perfeitamente pelo menos o inglês e não é nenhum purista do idioma oficial); 
Levando em conta que a sua actividade artística se realiza predominantemente no estrangeiro, o orgulho que sinto é elevado a um expoente com alguns zeros à direita!

Nástio conquistou um lugar entre os raros angolanos que conseguiram arrebatar-me e revitalizar a minha esperança na nossa música nestes últimos anos: Aline Frazão, Phay Grand e Sanguinário, sendo dentre eles, sem sombra para dúvida, o mais enigmático.


DEMO DA CRACÍA REMIX (EXTENDED) from DZZZZ ENT. on Vimeo.


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