segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

7 de Março. Será que a malta adere?

Obrigação social e moral de partilhar esta informação. Não vou esperar a ver se é credível ou não, sendo que não o fiz com a proposta do Cantona que era muito menos relevante para mim pessoalmente. Isto é o meu país e o meu povo e, neste caso, há imitações que eu acho que valem sim senhor a pena. Espero que a coisa consiga contagiar o número mais elevado possível de pessoas e que no dia 7 possamos desafiar a arrogância institucional e a prepotência individual do Sr. Dino Matross. Para já, neste momento, parte da minha missão se conclui.

http://www.revolucaoangolana.webs.com/

A página não inspira muita confiança, mas lembrem-se que o domínio perfeito da língua portuguesa e um site XPTO não fazem parte dos requisitos para a força de vontade de uma massa de descontentes e, não tornam a pessoa menos idónea. Existe até uma dose de humor benvinda no nome da pessoa que assina esta petição: Agostinho Jonas Roberto dos Santos. Muito bom:).

Aconteça o que acontecer, duvido seriamente que possamos ter algo como o que esta imagem do Egito (novo acordo ortográfico) ilustra:


Até dia 7 e se alguém tiver uma máscara de gás para me emprestar é só dar a dika nos comentários.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Terrakota - World Massala

Não vale a pena, eu mesmo curto bwé o som destes manos. Continuam a ter uma energia contagiante, e nem vou começar aqui a falar dos concertos, autênticos banhos purificadores de boa onda, sublimemente oferecidos por eternos animais de palco, que rebentam tudo sem pedir "com licença?".

Os kotas são superdotados, tendo a avassaladora e extremamente rara capacidade de superar as suas próprias peripécias musicais, o seu mosaico audiofónico multicultural ficando algumas peças mais rico, mais completo, mais bonito, mais próximo do sublime a cada excursão à volta do globo no Comboio OBA :).

Eu fui acompanhando a evolução deste disco, ouvi umas maquetes ainda nuas dos seus adornos alter-mundialistas (falo dos instrumentos tradicionais de certas regiões do globo obviamente e não dos grifes farruscos dos alternativo)... e sinceramente, não achei que alguma vez fosse poder achar este disco melhor que o anterior... ainda estou a vacilar, mas acho que é mesmo um coxito melhor... sei lá... pelo menos tem o mérito de continuar a convencer os meus ouvidos treinados para estarem em estado de alerta para repetições rítmicas, a constatação das quais me faz perder um bocado o interesse na banda que começo a achar que está a tentar fixar raízes numa zona de conforto após conquista de uma satisfatória base de fãs.

Com isto não quero dizer que isso nem que os kotas se reinventaram como banda e fizeram um disco totalmente inesperado, nem que, a perda de interesse seja da praxe quando as bandas continuam a guardar a sua identidade sonora. Existem várias excepções à essa regra e os Terrakota insistem em ser uma delas. Já quando foi o Oba Train eu não pensei que pudesse gostar mais de outro disco deles como tinha gostado do Humus Sapiens. Só depois do Oba sair é que consegui dar conta do que os anos podem fazer no que toca a polir e amadurecer certas técnicas... passei a reconhecer alguns defeitos no Humus que me passavam totalmente desapercebidos até então.

Curtam a naturalidade com que eles viajam nos padrões rítmicos de sítios tão díspares, voando do Rajastan, para o Senegal, saltando ali ao lado para Cabo-Verde, visitando a Nigéria e paragem obrigatória (?) em Angola antes de cambiarem de hemisfério para as Antilhas/Caraíbas, descaíndo finalmente um coxe para o Brasil, tudo com uma perna às costas e, para dar mais raiva da cara, misturam também idiomas (wolof é um dos recorrentes, mas uma nota especial e bem humorada para aquele portinhol com direito a pitada de criolo). As mensagens são sempre bonitas e idílicas, cheias de "não-lugares" como criticam os eternos pragmáticos que proliferam pelo mundo empresarial e nos parlamentos de todas as farsas que construímos sob o título de nações.

O Mark é uma adição inestimável ao colectivo, agraciando alguns dos coros com reviengas malucas, podendo perfeitamente passar-se (pelo menos para os leigos na matéria como é o meu caso) por um autêntico Devraj algures entre o Punjab e Bombaim. Granda Mark.

Este disco tem a participação do nosso inconfundível Paulo Flores em dois temas, justamente e de forma algo estranha, os dois temas mais calminhos que já ouvi da banda. O último, Raíz, é das coisas mais encantadoramente raras que ouvi nos últimos tempos, com uns barulhinhos de água e cabaças que dão vontade de mergulhar numa selha e um outro bizarro, mas muito kuyoso, que lembra uma sequência humanamente impossível de realizar daquele ruído que produzimos ao introduzir o indicador na bochecha e puxando-o repentinamente (tipo rolha de garrafa).

Com autorização explícita para "espalhar a música pelo mundo" directamente da boca (dos dedos, foi por mail) do Papa Juju.

Parabéns aos Terrakota pelo seu, discutivelmente, melhor álbum até à data e shame on me por ter, mais uma vez duvidado da capacidade deles de me arrebatarem.

01. World Massala
02. Kay Kay
03. Ilegal
04. I am
05. Slow Food
06. Né Djarabi
07. Pé na Tchon
08. Chelo Habibi
09. Gripe Económica
10. Ualelepo
11. Raíz




Catem o mambo aqui

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Coca o FSM - RelachTotal Mixtape


A música angolana está prestes a sofrer um abalo sísmico. Este esteve a ser aconchegado nas profundidades gargantuescas do centro da terra, a ser concebido, desenhado, formado para emergir com violência serpenteando por uma falha entre placas tectónicas no seu perpétuo, silencioso movimento. OK, estarei a emocionar-me demais exagerando o impacto imediato que esta mixtape pode vir a ter no panorama musical se tivermos em conta o público em geral que, longe de ser só em Angola, devota-se à música de índole duvidosa, superficial, de abreviada longevidade, com padrões rítmicos que têm de ser familiares para serem associados ao termo "bom", uma autêntica orgia de medíocridade, sendo este o termo que mais facilmente os melómanos associarão a música pop, salvo raríssimas excepções. Qualquer coisa mais refinada, mesmo que bem executada, atingirá apenas um punhado de gente, normalmente ligada ao mundo das artes, ou pessoas que tenham já tido o privilégio de viajar e misturar-se com outras culturas estando mais abertas à pluraridade e a diversidade, neste caso específico musical. Felizmente, essas são as pessoas que criam arte e a partir de agora, terão uma nova cor para acrescentar a sua palete de inspirações.

Eu acompanho moderadamente o percurso da Birrakru desde a altura em que o 7 Xagas me enviou algumas das brincadeiras que eles faziam na casa dele em Lisboa depois de uma noite de chuping, que veio a culminar num apanhado de demos fantásticas materializado sob o título de Pr'Alma, já aqui postado obviamente. Ainda assim, apesar de já conhecer a criatividade prolífica desse pessoal, consegui ser abalroado pelo comboio que rola nas calmas e que se chama COCA, O FSM anteriormente conhecido como Sílaba. Esta mixtape é tão inovadora que consegue transcender as claras influências que acarreta, cumprindo um papel que muitos artistas acabam por descurar que é o de reinventar-se, reciclar-se, adicionar o seu ponto a cada conto, não se autolimitarem ao circunscreverem-se num perímetro artístico para além do qual não ousam aventurar-se.

Já tinha comentado aqui neste blog acerca dos dotes vocais do Sílaba tkk Coca o FSM (Faray Sem Mobile). Apesar de achar que ele está a crescer muito e a deixar a anos-luz de distância os anos do "ar-colingue" (7 Xagas), continua a ser deliciosamente desafinado. Explico-me: eu suporto com muito menos facilidade um único desafinanço de artistas que se gabam de terem andado nas escolas X, Y ou Z, com mania de grandezas, pois sou inerentemente intolerante a indivíduos que cortaram relações com o termo "modéstia". Já os alegres cançonetistas sem nenhuma pretensão de se afirmarem ou de se elevarem a categorias às quais não pertencem, mas veículando o que sentem com pureza, conseguem mexer com as minhas emoções ainda que sejam PERMANENTEMENTE desafinados. A maior parte das vezes dá-me graça, que não deixa de ser uma emoção mais do que válida para ser transmitida pela música. Exemplo flagrante é o Dudley Perkins que nem sequer sinto que faça um esforço para melhorar a sua afinação e que conseguiu vender o suficiente com o Lil' Light para lhe darem (até agora) mais 3 oportunidades para fingir que sabe cantar.

Por isso, caso estejam à espera de ouvir um cantor com as notas todas na batata tipo Anselmo Ralph, desenganem-se, não é de todo o que se deve procurar aqui. O conteúdo desta mixtape é imensamente mais rico, mais complexo, mais completo do que qualquer álbum do artista acima mencionado e de todos os R. Kellys e Ushers que o influenciaram. É um disco radiante que promove a boa disposição e uma paz que contrasta com a vida bélica que levamos nesta abominável Luanda que continuamos a amar.

Como negar a beleza do refrão do som que dá título à mixtape? É tão doce, tão edificante, tão inspirador, que quase nos faz levitar. Afinado? Não necessariamente, mas porra, tá DEMAIS!
"Imagina só"? Dá vontade de sair a voar com aquele pianinho. Uma das marcas registadas dos instrumentais nesta mixtape é a delicada sobreposição de instrumentos formando camadas audiofónicas que acasalam entre si criando no fim a sensação de coesão que não pode estar muito longe da perfeição, de um requinte, de tal magnânima leveza que desconseguimos de nos fartar. Como podemos resistir ao balanço hipnotizante do "Mais do que Kambas"? Epá cada um com o seu gosto né? Mas os instrumentais para mim são altas pedradas de puro groove afro-soul, com arrojados elementos sonoros que não se associariam necessariamente à música romântica (aquele apontamento espacial tem tanto de discreto quanto de sublime). Se tenho um ponto negativo a apontar, depois de já descartada a importância da perfeição na afinação, seria algo minúsculo, o uso do que me parece ser um sample de scratch que dá um ar um pouco "ejay" à uma composição de outro modo flawless.

Os temas são essencialmente românticos, mas muito únicos, altamente imprevisíveis, com uma quase permanente mistura de poesia com humor e, sobretudo, fazendo recurso a gírias e linguagem terra-a-terra, o que para mim é um potencial sinal da individualidade que caracteriza o Coca, que não tenta seguir os moldes impostos pelo género ou pelos seus percursores, usando a sua música como uma perfeita imagem reflectida do ser humano que é. Aqui não é residência para falsidades sentimentais banais do género "meu coração está partido amor, vem ser minha enfermeira por favor". Exemplo do bom gosto das linhas apaixonadas qb "este som é para nós...quando virarmos borboletas, se eu tivesse o teu fone, te ligava concerteza".

Mas nem só de amor vive o homem e, lá para o fim da mixtape, o coca consegue lembrar que a música easy-listening não significa que o artista tem que se cingir à temas sem profundidade ou intervenção social e rebenta-nos com dois temas nervosos, com grande dose de humor à mistura, o primeiro sendo o "Só Pensa Nisso" com linhas que hão de arrancar sorrisos ao mais mal humorado dos ouvintes do tipo logo a de entrada: " o brada foi bookar no stade, voltou com um escalade", crítica social em formato soul d'angelo style. Boa dika do Kilates também, outro veterano birrakru. Para fechar chega o tema "Não Fazes Nada", um surpreendente um ataque directo ao poder instituído: "leio no jornal dizem pensas que és Deus, tudo para ti nada para mim e os meus", ou "não fala política, eles querem conversa bonita" aludindo ao facto de se a tua intervenção contrariar ou questionar a acção do executivo, tornas-te um alvo.
Nestes momentos sérios a abordagem do Coca chega a ser mais uma vez o que eu chamo de puramente mwangolé pois consegue estar carregadíssima de boa disposição que é característica deste povo sofredor, ilustrada nesta linha: "deves ter tomado propofol, a droga do Michael!!! E tomas bem!!!" AAAAAAAAAAAAAHAHAHAHAHA. "Sempre, sempre sempre com katás, dizes, dizes, dizes, mas não fazes nada". A mim parecia-me uma mensagem directa ao Zé Dú até chegar a parte do "mudar de bairro para a Talatona" e o "giras de Range".

Um papoite radialista perguntou-lhe "já limpaste a tua música?", insinuando que só depois de estar com qualidade XPTO é que ponderaria passá-la no seu programa de rádio. Porra assim tá soar magnificamente bem, porque essa mania com a "limpeza"? Que gente mesquinha! Temos todos de investir dinheiro do bolso para ir gravar nos vários estúdios profissionais que se nos oferecem por aí para termos direito a alguma credibilidade?

Que se invente um nome para este género, claramente um parente mwangolê do neo-soul, com muita mistura de afro-jazz, sendo que estas já englobam em si parentes mais idosos como a soul, o blues, o hip hop, mas sem dúvida também a música angolana da qual felizmente, nenhum criador angolano se livra, com excepção dos Cage Ones desta vida.

Fico confuso, como pode algo que soe tão bem ser tão desconhecido? Eu sei que o brother não se esforça, não corre atrás, não está desesperado para aparecer, não dá importância nenhuma a fama, aliás, só está hoje, depois de muitos anos a produzir pérolas, a partilhar o seu exuberante talento com nós comuns terráqueos, por prolongada insistência. Só me resta dizer "OBRIGADO" aos amigos chegados que conseguiram convencê-lo e POR FAVOR, não deixem mais ele privar o povo angolano do seu talento, agora ele tem um compromisso para connosco.



Enriqueçam-se e catem este mambo JÁ aqui