segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Coca o FSM - RelachTotal Mixtape


A música angolana está prestes a sofrer um abalo sísmico. Este esteve a ser aconchegado nas profundidades gargantuescas do centro da terra, a ser concebido, desenhado, formado para emergir com violência serpenteando por uma falha entre placas tectónicas no seu perpétuo, silencioso movimento. OK, estarei a emocionar-me demais exagerando o impacto imediato que esta mixtape pode vir a ter no panorama musical se tivermos em conta o público em geral que, longe de ser só em Angola, devota-se à música de índole duvidosa, superficial, de abreviada longevidade, com padrões rítmicos que têm de ser familiares para serem associados ao termo "bom", uma autêntica orgia de medíocridade, sendo este o termo que mais facilmente os melómanos associarão a música pop, salvo raríssimas excepções. Qualquer coisa mais refinada, mesmo que bem executada, atingirá apenas um punhado de gente, normalmente ligada ao mundo das artes, ou pessoas que tenham já tido o privilégio de viajar e misturar-se com outras culturas estando mais abertas à pluraridade e a diversidade, neste caso específico musical. Felizmente, essas são as pessoas que criam arte e a partir de agora, terão uma nova cor para acrescentar a sua palete de inspirações.

Eu acompanho moderadamente o percurso da Birrakru desde a altura em que o 7 Xagas me enviou algumas das brincadeiras que eles faziam na casa dele em Lisboa depois de uma noite de chuping, que veio a culminar num apanhado de demos fantásticas materializado sob o título de Pr'Alma, já aqui postado obviamente. Ainda assim, apesar de já conhecer a criatividade prolífica desse pessoal, consegui ser abalroado pelo comboio que rola nas calmas e que se chama COCA, O FSM anteriormente conhecido como Sílaba. Esta mixtape é tão inovadora que consegue transcender as claras influências que acarreta, cumprindo um papel que muitos artistas acabam por descurar que é o de reinventar-se, reciclar-se, adicionar o seu ponto a cada conto, não se autolimitarem ao circunscreverem-se num perímetro artístico para além do qual não ousam aventurar-se.

Já tinha comentado aqui neste blog acerca dos dotes vocais do Sílaba tkk Coca o FSM (Faray Sem Mobile). Apesar de achar que ele está a crescer muito e a deixar a anos-luz de distância os anos do "ar-colingue" (7 Xagas), continua a ser deliciosamente desafinado. Explico-me: eu suporto com muito menos facilidade um único desafinanço de artistas que se gabam de terem andado nas escolas X, Y ou Z, com mania de grandezas, pois sou inerentemente intolerante a indivíduos que cortaram relações com o termo "modéstia". Já os alegres cançonetistas sem nenhuma pretensão de se afirmarem ou de se elevarem a categorias às quais não pertencem, mas veículando o que sentem com pureza, conseguem mexer com as minhas emoções ainda que sejam PERMANENTEMENTE desafinados. A maior parte das vezes dá-me graça, que não deixa de ser uma emoção mais do que válida para ser transmitida pela música. Exemplo flagrante é o Dudley Perkins que nem sequer sinto que faça um esforço para melhorar a sua afinação e que conseguiu vender o suficiente com o Lil' Light para lhe darem (até agora) mais 3 oportunidades para fingir que sabe cantar.

Por isso, caso estejam à espera de ouvir um cantor com as notas todas na batata tipo Anselmo Ralph, desenganem-se, não é de todo o que se deve procurar aqui. O conteúdo desta mixtape é imensamente mais rico, mais complexo, mais completo do que qualquer álbum do artista acima mencionado e de todos os R. Kellys e Ushers que o influenciaram. É um disco radiante que promove a boa disposição e uma paz que contrasta com a vida bélica que levamos nesta abominável Luanda que continuamos a amar.

Como negar a beleza do refrão do som que dá título à mixtape? É tão doce, tão edificante, tão inspirador, que quase nos faz levitar. Afinado? Não necessariamente, mas porra, tá DEMAIS!
"Imagina só"? Dá vontade de sair a voar com aquele pianinho. Uma das marcas registadas dos instrumentais nesta mixtape é a delicada sobreposição de instrumentos formando camadas audiofónicas que acasalam entre si criando no fim a sensação de coesão que não pode estar muito longe da perfeição, de um requinte, de tal magnânima leveza que desconseguimos de nos fartar. Como podemos resistir ao balanço hipnotizante do "Mais do que Kambas"? Epá cada um com o seu gosto né? Mas os instrumentais para mim são altas pedradas de puro groove afro-soul, com arrojados elementos sonoros que não se associariam necessariamente à música romântica (aquele apontamento espacial tem tanto de discreto quanto de sublime). Se tenho um ponto negativo a apontar, depois de já descartada a importância da perfeição na afinação, seria algo minúsculo, o uso do que me parece ser um sample de scratch que dá um ar um pouco "ejay" à uma composição de outro modo flawless.

Os temas são essencialmente românticos, mas muito únicos, altamente imprevisíveis, com uma quase permanente mistura de poesia com humor e, sobretudo, fazendo recurso a gírias e linguagem terra-a-terra, o que para mim é um potencial sinal da individualidade que caracteriza o Coca, que não tenta seguir os moldes impostos pelo género ou pelos seus percursores, usando a sua música como uma perfeita imagem reflectida do ser humano que é. Aqui não é residência para falsidades sentimentais banais do género "meu coração está partido amor, vem ser minha enfermeira por favor". Exemplo do bom gosto das linhas apaixonadas qb "este som é para nós...quando virarmos borboletas, se eu tivesse o teu fone, te ligava concerteza".

Mas nem só de amor vive o homem e, lá para o fim da mixtape, o coca consegue lembrar que a música easy-listening não significa que o artista tem que se cingir à temas sem profundidade ou intervenção social e rebenta-nos com dois temas nervosos, com grande dose de humor à mistura, o primeiro sendo o "Só Pensa Nisso" com linhas que hão de arrancar sorrisos ao mais mal humorado dos ouvintes do tipo logo a de entrada: " o brada foi bookar no stade, voltou com um escalade", crítica social em formato soul d'angelo style. Boa dika do Kilates também, outro veterano birrakru. Para fechar chega o tema "Não Fazes Nada", um surpreendente um ataque directo ao poder instituído: "leio no jornal dizem pensas que és Deus, tudo para ti nada para mim e os meus", ou "não fala política, eles querem conversa bonita" aludindo ao facto de se a tua intervenção contrariar ou questionar a acção do executivo, tornas-te um alvo.
Nestes momentos sérios a abordagem do Coca chega a ser mais uma vez o que eu chamo de puramente mwangolé pois consegue estar carregadíssima de boa disposição que é característica deste povo sofredor, ilustrada nesta linha: "deves ter tomado propofol, a droga do Michael!!! E tomas bem!!!" AAAAAAAAAAAAAHAHAHAHAHA. "Sempre, sempre sempre com katás, dizes, dizes, dizes, mas não fazes nada". A mim parecia-me uma mensagem directa ao Zé Dú até chegar a parte do "mudar de bairro para a Talatona" e o "giras de Range".

Um papoite radialista perguntou-lhe "já limpaste a tua música?", insinuando que só depois de estar com qualidade XPTO é que ponderaria passá-la no seu programa de rádio. Porra assim tá soar magnificamente bem, porque essa mania com a "limpeza"? Que gente mesquinha! Temos todos de investir dinheiro do bolso para ir gravar nos vários estúdios profissionais que se nos oferecem por aí para termos direito a alguma credibilidade?

Que se invente um nome para este género, claramente um parente mwangolê do neo-soul, com muita mistura de afro-jazz, sendo que estas já englobam em si parentes mais idosos como a soul, o blues, o hip hop, mas sem dúvida também a música angolana da qual felizmente, nenhum criador angolano se livra, com excepção dos Cage Ones desta vida.

Fico confuso, como pode algo que soe tão bem ser tão desconhecido? Eu sei que o brother não se esforça, não corre atrás, não está desesperado para aparecer, não dá importância nenhuma a fama, aliás, só está hoje, depois de muitos anos a produzir pérolas, a partilhar o seu exuberante talento com nós comuns terráqueos, por prolongada insistência. Só me resta dizer "OBRIGADO" aos amigos chegados que conseguiram convencê-lo e POR FAVOR, não deixem mais ele privar o povo angolano do seu talento, agora ele tem um compromisso para connosco.



Enriqueçam-se e catem este mambo JÁ aqui

8 comentários:

Glenn disse...

esperei por um novo artigo neste blog (o último já tem um tempinho) e não fiquei decepcionado com a espera! de facto o FSM tem um som só dele, que te fica na cabeça o dia todo... eu já sou viciado no "imagina só" há alguns meses, mas agora que a mixtape está aqui, o relach pode ser MESMO total! longa vida À originalidade!!!!

ikono disse...

ehehehhe mano, a preguiça é demais... n bloggo apaixonadamente, mas tudo o que meto é do fundo do coração :). Assim também sei q n estou a meter dikas só por meter, quando sou impelido a fazê-lo é porque, para mim, a coisa é mais do que meramente "cool" e deve ser partilhada com o mundo.
Já disse isto algumas vezes por isso vou evitar o cliché "prometo que vou tentar ser mais regular", vou me deixar guiar pelos ímpetos vs preguiça que os oprimem :).
abraço

Almodvar disse...

Bom, acabei de baixar a cana e estou prestes a consumi-la, vamos ver a que sabe...

Almodvar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Almodvar disse...

1 hora e 10 minutos, infelizmente quase sempre não dou conta à primeira,mas a cena está num dos meus adjectivos preferidos, excelsa, me deixa entrar lá dentro mais...Se eu soubesse o teu nome...Yep é isso curti e vou curtindo, porque essa melodia desusual, vai sendo cantarolada inconscientemente pela minha mente! Pára id, mas ele nem sequer ouve; que fazer...? Oiço mais!!!

P.S Obrigado!!!

ikono disse...

Almodvar, sempre um prazer... depois de um doloroso e moroso download, fico contente que tenhas sentido q valeu mto a pena. Esse mano é muito único, tá mesmo a forjar uma cena só dele e eu sou fã de percursores.

Mpula disse...

Yei Lua.Já o tinhamos enrolado na banda sonora do "É Dreda Ser Angolano". Foi assim que teve airplay em rádios na Tuga, nomeadamente na playlist da Oxigénio. E esta mixtape vai direitamente para o Ginga Beat. Está doce.

ikono disse...

Xêeee mano Mpula.... quanta honra ver-te por estas bandas. Ainda arranjas tempo para explorar música na rede e ir além do montão de coisas q recebes diariamente? Ainda bem q curtiste a mix, eu acho q tá mto bem esgalhada e o gajo já tá a preparar a próxima: RELACHBRUTAL :) ehehehe
inté família