sábado, 22 de setembro de 2012

Hip Hop Angolano de Intervenção

Quero partilhar com aqueles que acompanham o blog estes dois EPs de Hip Hop de elevada qualidade.

O primeiro é de um mano já estabelecido na cena hip hop nacional, já vem de antigas e longas caminhadas, apesar deste ser apenas o seu segundo EP (que eu tenha conhecimento).

Sanguinário - Oxigénio Vol.II EP

Felizmente também uma prova que quantidade não é necessariamente proporcional a qualidade (frequentemente é o inverso) e que a paciência e a persistência são virtudes que se devem cultivar para se atingir patamares de qualidade mais dificilmente questionáveis.

O nome Sanguinário lembra provavelmente um artista horror-core e poderá ser razão de sobra para afastar potenciais ouvintes sem que estes lhe dêm sequer uma chance de um ocasional "play". Enganar-se-ão.

O mano poderá eventualmente reconsiderar o nome pois a violência que este sugere não é veículada no conjunto de palavras e harmonias que constituem a sua música, mas caso decida mantê-lo em detrimento dos ouvintes que nunca o serão pelas razões acima referidas, não será certamente isso que irá afetar a qualidade do material com o qual nos brinda. E oiçam bem, o mano não é o maior liricista de todos os tempos, longe disso, mas a combinação: "escorrega regular + letras acima da média + atitude sincera + instrumentais fodidosos" faz com que isto se torne hip hop angolano que não deixa absolutamente nada a dever à qualquer outra Nação já estabelecida na cena mundial. NADA!

Os instrumentais são definitivamente a sustentação de toda a estrutura desta crítica, extremamente competentes, misturados com mestria, com batidas pesadíssimas de uma cadência viciante metendo os pescoços a abanar involuntariamente. Missão quase exclusivamente a cargo do Kallisto exceto a faixa onde eu bokwei que foi duzida pelo mano Boni.

Infelizmente desta vez o mano já não disponibilizou o mambo gratuitamente, algo que, para mim, coroava o Vol.1 de mais valor na postura anti-comercial, sobretudo sendo este apresentado como uma continuidade.

Os meus temas preferidos sem sombra de dúvida: Religião (com drums pesados e um loop viciante que parece quase satânico); Deixem-nos em Paz (viciante, absolutamente); Dilema (um problema com o qual muitos se confrontam e do qual raramente saiem vitoriosos os valores que indiciem integridade. Mais uma vez, instrumental adequado) e Grande Amor (Remake), um dos instrumentais revelação do EP e uma letra muito sbem também, apesar de algo cliché, sobretudo quando repetido pela 3ª vez num EP com 9 músicas.

Sanguinário confirma solidez, Kallisto impõe-se! GRANDE EP! (Não encontro a capa, quando a tiver substituo a imagem abaixo pela original).
01.Intro
02.Oxigénio pt.2 c. God G
03.Religião (O Lado Negro)
04.Poesia Inédita (Pra Música) c. Kanda
05.Deixem-nos em Paz
06.Graças a ti (Hip Hop) c. Ikonoklasta
07.Skit
09.Dilema
10.Criar com os Ouvidos c. MCK
11.Repetição
12.Outro - Grande Amor (Remake)




Catem o mambo aqui

Projecto Não Vota - Projecto Não Vota


O Projecto Não Vota, foi metido em marcha por um coletivo de manos do Cacuaco que inclui a 3ª Divisão, MP Crew e os Tiranicídios Verbais, com um objectivo bem pontual que era o de apelar à abstenção nas eleições gerais que tiveram lugar no passado dia 31 de Agosto.

Se tivessemos uma boa equipa de marketeiros brazukas a trabalhar com os miúdos poder-se-ia agora aproveitar os resultados finais (e ainda assim maquilhados) da abstenção e responsabilizar o projeto por boa parte dessa escolha de (não) voto. Slogans como: Quando o Hip Hop configura o país; A nova classe política de Angola; Rap sai em segundo lugar nas eleições angolanas e outros tantos do género, que iriam maravilhar um mundo que se agarra aos títulos quase sem desenvolvimento de raciocínio lógico subsequente para extrapolar uma situação, normalmente mais complexa. Foi o caso da nossa elevada taxa de abstenção (os dados aldrabados da CNE indicam que foram à volta de 37%, mas foram mais), que tem explicações que não vou aqui avaliar, mas que quem quiser poderá tentar entender explorando este site.

Os jovens têm aquele flow de "rap revú" de quem tem muito para dizer e por isso recusa-se obedecer à métrica, ou recorre-se, para fazê-lo, ao mastigar de sílabas que são metralhadas com a eficácia de uma AK-47, mas são percetíveis e dizem coisas com o seu sentido e valor. Essas palavras são valorizadas e elevadas ao estatuto de audíveis por mais um desconhecido produtor, Kid Ground, que prova que no ramo da produção o nosso Hip Hop evoluiu anos-luz mais rápido que todos os outros domínios dessa cultura, incluíndo o Mceeing.

São 3 faixas e as duas primeiras são as minhas prediletas. Saíu bem o refrão da Crucifikem a Tirania: "Nós temos pregos, troncos, martelos e coragem, marchemos para o Palácio do Mal e crucifiquemos a tirania!".

01.Não Vota
02.Crucifikem a Tirania
03.Geração Robotizada

Catem o mambo aqui

7 comentários:

J.A.Z.I.G.O disse...

OBRIGADÃO MANO PELO POST (PUBLICAÇÃO) DESTE PROJECTO NESTE TÃO PURO IMPORTANTE E UM DOS ÚNICOS BLOGS DE MUSICA NECESSÁRIA QUE EU VISITO COM UMA KUASE CERTA FREQUENCIA... OBRIGADÃO MESMO IRMÃO... SEM PALAVRAS KUANDO AS TIVER VOLTO A CARGA...

diego paulo da Cunha disse...

fogoh ganda cena,8 elementos dentro de um estúdio que so cabe 4 pessoas,sem contar com o produtor(C.O) e eu claro mas os manos vão puder ter as faixas se baixerem neste link http://www.mediafire.com/download.php?w49viodnnl0mw66

ikono disse...

J.A.Z.I.G.O. meu brother, como vês, eu só ponho no blog aquilo que SINTO, por isso não tens que agradecer. Quando vocês foram à rádio levar o projecto eu avisei que só ia passar se gostasse. Neste espaço sobretudo, tão pessoal, tão íntimo, não tenho compromisso, nem dever moral de agradar ninguém, por isso mano... parabéns para vocês por terem conseguido contrariar todas as adversidades que contra vocÊs se levantam e meter material de qualidade nas ruas. As nossas ruas andam carentes de alimento para a alma :)

J.A.Z.I.G.O disse...

"Grande" Ikono há muito que me tenho questionado se és o mentor deste blog? parece que sim!!! pois outro com a tua característica, discurso quase sempre coerente e único axu k não há... kuanto ao facto d humildment aceitares ou não o nosso "OBRIGADÃO" epah só a ti mesmo cabe, mas deixe k nós manifestemos o nosso agrado por teres feito, mesmo não teres uma participação directa, nem compromisso, nem dever moral cobrado ou exigido ou não pra tal, talves seja uma educação de "berço" agradecer mesmo kuando aparentement não haver tanto pra tal... Infelizmente não xtive no dia em k outros manos bazaram à rádio mas fui informado d k a cena decorreu na mais isenta parcialidade (de opiniões a favor ou não)… mais uma vez aceita ou não o nosso e de todos que se revejam de alguma forma nas temáticas do projecto agradecimento pelo que tens feito em prol e pela congratulação e por seres uma das poucas pessoas a observar um certa coerência no mesmo e pertinência, se calhar é a humanidade, a paz, a liberdade, a dignidade, k agradecem-te mais do que eu… devo dizer-te que realmente fomos quase “apedrejados” por trazer este tema de capa do projecto, numa altura em k muitos ainda, mesmo não serem a favor do regime tinham esperança em mudança através do voto… isto prova que as pessoas ainda têm uma certa preguiça mental em vislumbrar um certa mudança radical… e conviver pacificamente com as opiniões e posições de outrem… BEM-HAJA o alimento pr’alma… e espero que sintas de igual modo o projecto completo porque akelas foram apenas promos intencionalmente lançadas antes d 31 d agosto, com uma certa pressa e nisto deve-se uma certa culpa ou não pela falta de alguma coisa nas mesmas… o projecto final terá 18 faixas (temas) e pretende ser disponibilizado ainda este ano… Fika riju!!! Mano… bazei…. Dpois volto com algumas sugestões para o blog…

Almodvar Baldaia disse...

Primeiro gostaria de frizar que me tornara um céptico do Rap lúsofono (com poucas excepções)me encontrava mergulhado em snowgoons Jedi mind tricks talib kwely Army of pharaos and so on...portanto tinha preguiça e mesmo desinteresse em baixar estes posts, mesmo com a assinatura de um dos poucos sobreviventes do underground angolano...mas num belo dia me vi chateado comigo próprio após ouvir o sanguinário e o God G, quanta originalidade fogo...without words, e aí me vi chateado mais uma vez depois de ouvir o projecto não volta (fogo isso não é apenas música é...) e mais nem sabia que o Di estava nisso (sorry aí bro)...então viva o underground Luso, estes projectos não ficam a dever nada a ninguém em qualquer parte do mundo...os meus cumprimentos!

Almodvar Baldaia disse...

ah e queria deixar também um link de um vídeo dos DOD, não sei se conheces mas chek it out...http://www.youtube.com/watch?v=rJsYavsaCAA

ikono disse...

Almodvar, ainda bem que também conseguiste ver revigorado o teu interesse pelo rap em português. Realmente há poucas coisas a fazerem-nos dizer "FOOOOOOODA-SE" nos dias que correm, parece q o pessoal se perdeu nas imitações. Projetos como o do Sanguinário e do Projeto Não Vota são sem dúvida revigorantes. abraço